Maternidade e ciência: uma luta pelos direitos maternos nas universidades

16 nov 2021 | Maíra Amaral

O Meninas nas Ciências entrevistou as pesquisadoras Jamille Gomes e Mariana Procópio da Universidade Federal de Viçosa para compartilharem suas experiências sobre maternidade e ciência.

Alice assoprou as velinhas do bolo do seu aniversário de sete anos dia 11 de novembro deste ano. Ela é filha de Jamille Gomes, pedagoga e mestra em Educação pela Universidade Federal de Viçosa (UFV). Jamille engravidou enquanto ainda cursava sua graduação na UFV. A gravidez não foi planejada e ela não estava em nenhum relacionamento sério. A partir deste momento, a jovem, que na época tinha 20 anos, começava a sentir na pele as dificuldades e as barreiras que as mães são sujeitadas a enfrentar. “Quando eu engravidei, essa dimensão da desigualdade de gênero e do feminismo ficou mais intensa e eu percebi que tinham raízes muito mais profundas”, conta a pesquisadora.

Jamille Gomes e Alice. Arquivo pessoal de Jamille.

Jamille conseguiu uma licença maternidade de 90 dias que coincidentemente calhou de cair em seu período de recesso do final do ano. Quando as aulas voltaram, a falta de uma rede de suporte veio à tona. Mesmo tendo o apoio de sua mãe, Jamille não poderia se ausentar por um período longo por conta da amamentação do bebê.

A então estudante procurava propor negociações com os professores, para não frequentar todas as aulas em função dos cuidados de Alice, mas eles se mostravam sempre irredutíveis e lançavam mão de comentários sexistas como “Não tem televisão em casa?”, atribuindo a responsabilidade das dificuldades que Jamille passava inteiramente à ela. 

Assim, Alice acompanhava a mãe em suas aulas e Jamille começou a reparar que se sentia extremamente incomodada com olhares e falas de pessoas ao seu redor que demonstravam pena pela sua situação. Ela via que este problema estrutural na sociedade em que colocam a mulher como a única responsável pelos cuidados e criação da criança gerava barreiras e impedimentos de crescimento profissional para mulheres, entre outros problemas. Segundo a cientista, não dá para contar com uma rede de apoio para conciliar as obrigações. 

Ainda na graduação a estudante conseguiu uma bolsa para fazer Iniciação Científica e assim começou a entrar no mundo da pesquisa. Em seu Trabalho de Conclusão de Curso, ela gostaria de pesquisar sobre questões relacionadas à maternidade, mas a temática não foi bem vista pela sua orientadora que, na época, justificou dizendo que era um assunto mais voltado para área de Ciências Sociais e que não cabia na área da Educação. 

Depois da graduação, Jamille entrou no mestrado em Educação pela mesma universidade. Ela submeteu um projeto para estudar a questão de mães na universidade para tentar entender a dinâmica de conciliação que existe. Assim, entrevistava tanto mulheres na academia quanto homens para perceber o contraste que há na divisão sexual no trabalho. 

À medida que a pesquisadora seguia novos níveis da sua formação acadêmica, ela ia percebendo o quão difícil isso era para uma mãe. A partir dessa percepção da ausência das mulheres nos espaços num geral que Jamille chegou à política. 

Em 2020, ela se candidatou para o cargo de vereadora no município de Viçosa, Minas Gerais. Jamille busca diariamente levar as pautas feministas e sobre maternidade para o plenário e sempre diz que “lugar de mãe é na política” lutando para que cada vez mais mulheres possam estar em todos esses espaços de debate e criação de políticas públicas.

Na mesma cidade, existe uma outra Alice, essa tem 6 anos. Nasceu enquanto sua mãe, Mariana, estava pelo terceiro ano como professora efetiva no Departamento de Comunicação da UFV. Mariana Procópio hoje também tem a Sofia, irmã de Alice, que chegou em 2020. Ela conta que se encontra em uma posição de certo privilégio por poder contar com seu companheiro para compartilhar as obrigações na criação das meninas, pois é uma realidade diferente de grande parte das mães brasileiras que são as únicas responsáveis pelos seus filhos.

Mariana Procópio e suas filhas Alice (direita) e Sofia (esquerda). Arquivo pessoal de Mariana.

Mariana se deparou com alguns incômodos enquanto ainda amamentava Alice. Ela tinha direito à licença-amamentação nos seis primeiros meses do bebê, mas optou por amamentá-la por dois anos e dois meses. Isso criou uma necessidade de explicação desta condição aos colegas de trabalho, o que não deveria acontecer. Não viam como natural a escolha de Mariana em amamentar sua filha e fazer pausas em alguns momentos do dia para isso: “Perceba que parte sempre de um entendimento que a mulher tem que justificar a sua escolha por continuar amamentando e tem que contar com uma “boa vontade” caso ela esteja refém de uma organização de horários para que essas pessoas compreendam isso” — diz Mariana.

Atualmente, ela também é professora do Programa de Pós-Graduação em Letras da UFV e do Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Ao compor esses espaços, ela percebe a necessidade de uma mudança nas métricas de avaliação de mulheres que são mães em processos de seleção de Programas de Pós-Graduação e de Departamentos de graduação.

A mulher que passa por uma gestação, recupera do parto e amamentação, além de precisar de um ajuste de horários pelas demandas maternas, ainda não possui as mesmas condições físicas de antes da gravidez. Por isso, segundo a professora, as métricas que avaliam pesquisadoras que são mães não deveriam ser as mesmas para outras pessoas que não estão nestas condições.

Para ela, esperar que esta mãe possua o mesmo ritmo de produtividade indica uma falta de empatia e de olhar para as limitações desta mulher neste novo período. O número de publicações, a leitura que precisa ser feita, o retorno de atividades para alunos e a participação em reuniões são atividades impactadas pela maternidade.

Tanto para Mariana quanto para Jamille, os congressos e outros eventos acadêmicos são um importante ponto nesta discussão também porque grande parte deles não possui um espaço de acolhimento para crianças, e essas mães acabam sendo impossibilitadas de participar por, às vezes, não terem com quem deixar os filhos.

“Se é o caso de uma mãe que continua amamentando ou mesmo que seja uma criança maior, como ela vai poder levá-la se não houver uma rede de apoio que possa ficar com essa criança ou acompanhá-la no congresso? É praticamente impossível. Então o que eu gostaria de deixar marcado é que essa inserção da maternidade não se resume ao período da licença. O impacto da maternidade na vida da mulher cientista não é mensurado só por aqueles meses da licença, ele se amplia porque há os cuidados com a criança que sempre continuam” — destaca Mariana.

Elas acreditam que as medidas que precisam ser tomadas têm que ir além da licença maternidade. Isto inclui mudanças em editais e também vagas em creches e escolas próximas à universidade para filhos e filhas de pessoas da comunidade acadêmica. 

É por causa dessa lacuna nos direitos de cientistas que passam pelo processo da maternidade que, no Brasil, foi criada em 2016 a iniciativa Parent in Science. É um movimento que nasceu para colocar em pauta as questões acerca da maternidade e paternidade dentro do universo científico brasileiro. Ele foi fundado pela pesquisadora Fernanda Staniscuaski da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e conta com a participação de 16 cientistas de centros de pesquisa de todo o país.

Banner e logo do movimente Parent in Science. Foto/Reprodução

 

O projeto tem diversos objetivos. Um deles é pesquisar o impacto dos primeiros anos de maternidade e paternidade na carreira de cientista e utilizar esses resultados para propor políticas públicas que auxiliem os pais a dar um equilíbrio na vida pessoal e profissional. Além disso, trabalham na conscientização da importância do aumento da licença-paternidade e estimulam a paternidade ativa. 

O projeto busca, ainda, fomentar a necessidade do desenvolvimento de políticas de apoio relacionadas à maternidade no meio acadêmico e científico, como a consideração do período da licença-maternidade durante a avaliação de currículos para concursos, editais de fomento e progressão de carreira, e o fornecimento de auxílio para dependentes, no caso de bolsas no exterior ou participação em eventos científicos.

Desde a criação do movimento algumas vitórias foram alcançadas como o comprometimento por parte do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) de incluir um campo para a licença-maternidade no Currículo Lattes. A iniciativa também elaborou o “Guia Prático para oferecimento de recreação em eventos científicos” e promoveu a adoção, em editais de financiamento e de bolsas de várias instituições, de critérios específicos que consideram os períodos de licença-maternidade na análise dos currículos no caso de cientistas mulheres.

Todo esse trabalho de reconhecimento ainda é necessário para lutar contra a disparidade de gênero na ciência. Entender a realidade dessas mães e pais cientistas é necessário para um ambiente acadêmico mais justo e igualitário em que todos possam obter as mesmas oportunidades de crescimento neste meio.

O projeto de extensão Meninas nas Ciências está cadastrada no SigProj sob o protocolo 347119.1925.86178.09022020 pela Universidade Federal Fluminense e coordenado pela Profª. Drª. Adriana Melibeu

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