A inclusão de mulheres com deficiência no Ensino Superior

Lívia Pinheiro. Foto/Reprodução
A luta pela entrada e permanência de mulheres nas ciências deve incluir toda diversidade que existe dentro do gênero. O projeto Meninas nas Ciências promove postagens explicativas e entrevistas com as mais diversas mulheres que atuam em diferentes áreas do conhecimento.
É importante que a discussão também abarque as mulheres com deficiência. De acordo com um estudo feito por três autoras da Universidade Estadual Paulista (Sandra Eli Sartoreto de Oliveira Martins, Lúcia Pereira Leite, Ana Paula Camilo Ciantelli), mesmo havendo políticas públicas que para colaborar com a inclusão de pessoas com deficiência no Ensino Superior, não existe muito o que possa ser feito para garantir acesso, permanência e participação desses estudantes nas universidades.
Segundo as autoras: “é grande a escassez de estudos sobre inclusão do estudante com deficiência no ensino superior brasileiro, assim como são raras as instituições que possuem mapeamento e/ou acompanhamento desse alunado “.
Lívia Pinheiro é graduada em Biomedicina pela Universidade Federal Fluminense e recebeu a Láurea Acadêmica, prêmio que a reconheceu como estudante com maior Coeficiente de Rendimento (CR) da sua turma. Lívia é deficiente auditiva e isso não a impediu de ir atrás de seus objetivos e realizações.
Ela também é mestre em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e atualmente trabalha como Perita Criminal no setor de Bioquímica do Serviço de Perícia de Química, no Instituto de Criminalística Carlos Éboli.
O projeto Meninas nas Ciências a entrevistou em 2020 para o canal no Youtube e, agora, Lívia concedeu mais uma entrevista, que segue abaixo na íntegra, falando sobre como é ser uma pessoa com deficiência no mundo acadêmico:
Maíra Amaral – Como foi a sua trajetória como uma universitária com deficiência auditiva e que possui um dos CRs mais altos do curso de Biomedicina da UFF sendo premiada com a Láurea Acadêmica? Você perdeu a audição completa do ouvido esquerdo mais ou menos no meio da graduação, de alguma forma isso foi um obstáculo?
Lívia Pinheiro – Parte disso foi em função de uma enorme rede de apoio que fui tendo ao longo da vida, que começou na família, com meus pais atentos à deficiência que se manifestou na infância e que desde cedo correram muito atrás para que eu e minha irmã — que também é deficiente auditiva — tivéssemos as melhores oportunidades possíveis; que passou por diversos profissionais de saúde auditiva (fonoaudiólogos, otorrinos, etc.) do SUS, onde fizemos a maior parte do tratamento ao longo da vida; por todos os professores e colegas que nas escolas se preocuparam em saber se estávamos ouvindo; até chegar nos professores e amigos da graduação de Biomedicina UFF, que foram os melhores. Principalmente os amigos da Patota (amigos de turma), que inúmeras vezes repetiram algo da matéria que eu não tinha entendido, que emprestaram cadernos pra copiar partes que o professor tinha falado e que não estava nos slides, que lembravam os professores de falar virados de frente para a classe, porque eu dependia muito da leitura labial. Tenho deficiência auditiva neurossensorial bilateral e de fato perdi todo o restante da audição do ouvido esquerdo mais ou menos no meio da graduação. E na época foi sim um baque, pois por mais que a perda fosse progressiva, parcialmente contornada desde a infância com o uso de aparelhos auditivos, naquele momento foi algo abrupto e repentino, que dificultou ainda mais a escuta e entendimento das aulas. A vida tem dessas coisas, a gente vira em uma curva da estrada e dá de cara com um obstáculo que parece intransponível. E às vezes, é. A audição perdida não volta. Mas se temos algo enquanto humanos é sermos seres extremamente adaptáveis. E diante dos desafios tentamos buscar formas e meios de seguir em frente, e caso não dê, de contornar, de dar uma guinada em outro sentido. Nessas horas também se evidencia o quanto somos interdependentes, pois as dificuldades existem para todos, e quando praticamos a empatia, quando nos apoiamos, nos fortalecemos enquanto espécie.

Turma de Biomedicina de Lívia Pinheiro. Foto/Reprodução
M.A. – Em questão de inclusão social, já percebeu alguma diferença de tratamento durante a graduação?
L.P. – Não tenho lembrança de nenhum episódio específico, mas sabemos que infelizmente é algo que acontece. Às vezes essa diferença de tratamento se manifesta de forma sutil, não tão explicita, com um olhar de coitadismo, de pré-julgamento. Às vezes na forma de uma desatenção na fala, no uso de termos depreciativos em relação à deficiência. Muito porque é de fato difícil entender as dificuldades reais do outro sem estar na pele. Lembrando que existe, sim, um preconceito estrutural contra a pessoa com deficiência, que está tão enraizado na sociedade que se apresenta de formas quase invisíveis, como por exemplo no fato de termos tão poucos estudantes com deficiência no ensino superior. O capacitismo é uma forma de opressão, essa pré-concepção da capacidade do indivíduo, como se as pessoas com deficiência fossem de alguma forma inferiores ou incapazes, em comparação com um referencial supostamente definido como perfeito. E isso em um espaço tão importante quanto a universidade deve ser combatido. É essencial na questão da inclusão social ter uma abertura por parte da universidade, das coordenações de graduação, um olhar de acolhimento para o aluno com deficiência. Porque às vezes ele se sente constrangido em falar sobre suas necessidades, e ter esse movimento de abertura em direção àquele aluno, em considerar as adaptações necessárias para atendê-lo dentro do escopo da deficiência, faz com que ele se sinta acolhido, transforma a experiência do aprendizado e a vivência universitária. Às vezes uma coisa simples, como adaptar legendas em um vídeo ministrado em alguma disciplina, faz com que um aluno com deficiência auditiva se sinta mais incluído naquela aula. E é justamente por meio da inclusão que esse preconceito é combatido, convivendo com a diversidade é que entendemos que a diversidade é algo normal.
M.A. – A cada ano mais meninas podem entrar na ciência, qual incentivo você daria, considerando a sua trajetória, para uma menina com deficiência que tem um sonho de entrar numa faculdade?
L.P. – Para não deixar que ninguém paute suas limitações com base na deficiência. Como disse anteriormente, a sociedade ainda tem de um modo geral um olhar de pré-conceito, no sentido de achar que a pessoa com deficiência é de alguma forma menos capaz. E no nosso caso existem situações, no campo profissional por exemplo, em que a deficiência acrescenta uma camada de dificuldade extra ao “ser mulher”. Ouvi algumas vezes ao longo da vida: “Você tem certeza de que quer fazer isso? E se você não escutar direito?”. Sempre haverá aqueles que olham para deficiência com receio/incredulidade/desconfiança. Mas somos seres tão adaptáveis, tão amplos e complexos, que já passou da hora de percebermos que não cabe esse julgamento da capacidade alheia, e o quanto antes a sociedade entender que a diversidade é força e que a aceitação do diferente nos faz mais humanos, melhores seremos. Então meu conselho a vocês, meninas, é esse: que não deixem que ninguém defina o que são capazes ou não de fazer – só vocês podem saber isso; e que acreditem em si e aproveitem as oportunidades, ainda que seja para tentar.
Lívia é um exemplo de persistência e de quem valoriza o apoio que teve tanto de colegas e amigos quanto dos professores da UFF. O projeto Meninas nas Ciências acredita no protagonismo e na rede de apoio que se deve criar no ambiente acadêmico e, também, em todo os espaços para contribuir com uma educação e permanência de estudantes de forma igualitária.
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