A presença feminina na vida universitária

30 abr 2021 | Maíra Amaral, Milena Lopes | 0 Comentários

A inserção de mais mulheres em universidades marca mudanças significativas na estrutura social em que vivemos. De acordo com uma pesquisa feita por Moema de Castro Guedes em 2008  — doutoranda em demografia no Instituto de Filosofia de Ciências Humanas da Universidade de Campinas — dados do IBGE mostram que de 1970 até os anos 2000 o crescimento do número de mulheres universitárias foi expressivo: este número passou de 25% para 53%.

Além desta pesquisa, a partir de  Dados do Censo da Educação Superior divulgados pelo INEP, podemos analisar que em 2015 as mulheres representaram 59,88% dos estudantes que concluíram cursos de graduação presenciais no Brasil. E também, o percentual de mulheres que concluíram cursos de graduação presenciais manteve-se próximo a 60% no período de 1999 a 2015, o que pode auxiliar a termos uma percepção desta consolidação da inserção feminina nas instituições de ensino superior.

Nota-se, porém, que a melhora da escolaridade feminina não representa necessariamente uma alteração com as mesmas proporções na inserção das mulheres no mercado de trabalho, mas é inegável que esta seja uma grande conquista. A respeito deste crescimento, segundo Moema, “ao mesmo tempo que indica sinais expressivos de novos modelos do feminino (menos articulados exclusivamente ao espaço doméstico), também apresenta traços marcantes de uma cultura patriarcal (ainda) presente em diversas esferas da vida social”.

Esta cultura patriarcal também pode ser notada na hierarquização, inclusive, das instituições de ensino. Percebemos que há mais professoras no ensino básico e, ao chegarmos nas salas dos cursos universitários, este padrão é alterado, indicando uma predominância masculina – o que também é visto em altos cargos administrativos como diretores e reitores.

De acordo ainda com a pesquisa, a difusão de novos valores trazidos pela incessante luta feminista, aos poucos, combate os ideais conservadores e acabam estabelecendo novas práticas no campo social, que resultam nesta crescente vontade das mulheres de cada vez mais procurarem cursos de maior prestígio, ou seja, que são mais valorizados no mercado de trabalho. Além disso, a presença feminina em cursos universitários historicamente “masculinos” influencia diretamente na construção de novas identidades sociais, refletindo em um quadro mais amplo de mudanças nas relações de gênero.

Dessa forma, é possível notar como o sexismo estrutural atravessa a vida social. Atualmente, ainda é comum percebemos que mulheres são mais presentes justamente em muitos cursos de Ciências Humanas, de licenciatura, e também em áreas relativas ao cuidado, seja pedagógico infantil ou da saúde e que, geralmente, são cursos menos concorridos ou com notas de corte não tão altas.

No infográfico abaixo, o Meninas nas Ciências fez uma análise das matrículas ativas em abril de 2021 da Universidade Federal Fluminense (UFF) — nossa instituição de origem — disponíveis no sistema de transparência da UFF, foi feito um mapeamento de distribuição dos alunos ativos*  como mulheres e homens em diversos cursos da universidade. Nele, podemos perceber este padrão em que mulheres estão menos presentes, por exemplo,  em cursos como Engenharias Ciências Exatas e da Terra.

A partir da visão de Ana Cristina Furtado Pereira que realizou a pesquisa “História da mulher no Ensino Superior e suas condições atuais de acesso e permanência” pela Unespar a escolaridade feminina sempre foi lesada por considerarem a mulher pertencente apenas ao mundo privado, ou seja, dentro de casa. Além, também, de associarem ao gênero feminino a denominação de “sexo frágil”, o que a colocaria em uma posição inferior.

Segundo a autora, era atribuído somente ao homem a inteligência operacional, capacidade de decisão e a razão, em detrimento ao “sentimentalismo” que era associado à mulher. Com isso, emerge esta dificuldade de consolidação de um número equilibrado de homens e mulheres nestas áreas das consideradas mais “duras” como Matemática e Ciência da Computação.

Os estereótipos ainda são muito evidentes, como foi dito na entrevista que lançamos no dia de hoje — Drª Leticia de Oliveira — em comemoração ao Dia Nacional da Mulher. A disparidade salarial entre homens e mulheres, até mesmo na mesma posição, está novamente aumentando. A baixa representatividade de mulheres em cargos de decisões, preconceitos,  assédio, o cuidado com os filhos por muito atribuído somente às mães e diversos outros desafios ainda estão presentes em nossa sociedade. O projeto Meninas nas Ciências acredita que para um país mais democrático que com iguais oportunidades é fundamental a luta pela entrada e permanência de cada vez mais mulheres no mundo acadêmico e profissional.  Desejamos a todas um grande Dia Nacional das Mulheres e continuemos a nossa luta, um dia de cada vez.

*Segundo o sistema da universidade, alunos ativos são aqueles “que efetuaram a matrícula na universidade em curso de graduação, estando associados a uma das situações definidas pela PROGRAD e DAE junto ao sistema acadêmico como: abandono; afastamento mobilidade internacional; afastamento mobilidade nacional; afastado; excedente em disciplina; formando; inscrito; inscrito sem aprovação; interno; interno com disciplina; pendente; trancado; trancado automático; trancado automático por abandono; e trancamento especial.”

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O projeto de extensão Meninas nas Ciências está cadastrada no SigProj sob o protocolo 347119.1925.86178.09022020 pela Universidade Federal Fluminense e coordenado pela Profª. Drª. Adriana Melibeu

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